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Lendas

Lendas

 

Chico Buarque, em conversa com Tom, exprimiu bem a minha insaciável vontade de, vez por outra, reencontrar os amigos diletos. Disse o Chico que gostava de conversar com o Tom, para ouvir dele, no seu modo especialíssimo de narrar, “novas versões de velhos acontecimentos”.

 

Eis aí o motivo pelo qual delicio-me com os reencontros. De fato, surgem sempre novas versões dos melhores acontecimentos vividos ao longo do tempo, principalmente do tempo em que convivíamos estreitamente.

 

As novas versões não deixam nada a desejar. Costumam vir com outras cores, novos ângulos de visão, e não raro, alguma coisa nova, isto é, velha, porém não relembrada na versão ou versões anteriores. Às vezes vêm mesmo com adendos efetivamente novos, encaminhando ou reforçando a destinação dos fatos no rumo da lenda.

 

Parece coisa que relembrar os acontecimentos sob uma nova ótica, sob velhas luas cheias, sob antigos lábaros estrelados, mas novos, novos, porque de novo estão acontecendo sobre as nossas cabeças estas luas e estes lábaros estrelados, velhíssimos, parece coisa que estas relembranças acabam por tornar-se algo literárias, históricas, lendárias, que mais vivamente tocam as nossas almas que a realidade do tempo em que foram vividas.

 

Até porque, a mim me parece, não se tem plena consciência da beleza e da significação da vivência no momento em que se desfruta. Vive-se o momento com a naturalidade paquidérmica do boi no pasto. Acho que exagerei. Saboreia-se, sim, o momento vivido. Mas com outras cores.

 

Acontece que ao recontar histórias costuma-se juntar outros ingredientes, como o constatar-se que o nosso filho experienciou algo que nós também, naquela idade, experimentamos, e é aí que a lenda vem enriquecer o encontro.

 

É como um lance paleontológico. Achar um pedaço de osso da perna de algum animal extinto leva o descobridor a imaginar mil e uma situações. Daqui a milhares de anos, um pé de galinha poderá levar alguns fanáticos destas escavações ao delírio. Para nós, quá, a galinha inteira pouco representa em termos de imaginação. Ela está ali, diante de nossos olhos, em carne, ossos e penas.

 

Mas, nós, que temos mais que um mero esqueleto, que temos a imagem inteira de nossos melhores momentos, poderemos criar quantas versões quisermos, infinitas versões sempre mais e mais coloridas e carregadas de novas nuanças, até que sejamos nós próprios não mais que a própria lenda, sim, até que sejamos nós não mais que uma bela e distante história na sua última, intangível, definitiva versão.



Escrito por Luiz Paulo Santana às 22h14
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