Adoro reler velhas poesias
Adoro reler velhas poesias no recesso de minha quase silenciosa biblioteca, apenas o inevitável zumbido do computador. Minha reação ao lê-las varia conforme o meu estado de espírito, e este, com os dias da semana. Assim, se me exulto ao ler determinado poema, calha ser uma quinta-feira, quando muito, uma quarta. Segunda-feira tudo me parece uma merda. A sexta-feira é confusa, dispersiva, excessivamente hílare. Terça-feira encontro-me muito ocupado.
Segunda-feira a gente se levanta e pensa: “Que vida besta!” Acorda quando não devia acordar, poderia continuar dormindo até terça, mas acorda, porque a cama já não é a mesma. Senta na cama, olha em torno e constata, aparvalhadamente, que tudo está amarrotado: desde os lençóis até a alma. A cara, nem se fale. A cara só deveria ser vista a partir das 17:00 horas. Tremenda ressaca de um domingo que nem sempre vinga.
Mas os poemas, ah!, relê-los em certas circunstâncias, noite alta, estrelas no pedaço de céu do quintal que atravesso vez por outra, vale a pena. Não pelo valor poético, que há algum neles, sem dúvida, falam com a minha própria alma, mas sobretudo porque me recordam épocas, situações, emoções e lugares que, se já não existem mais, existem em mim, como impressão digital indelével.
Poemas que são o meu próprio cerne, a minha pegada invisível, o cheiro, o aroma que só eu posso perceber. Mas quando estou nos dias errados, naqueles dias de corpo fechado, ficam como esqueletos no armário, esqueletos de letras e palavras estruturadas que não assustam, não comovem, tão inúteis quanto uma vassoura quebrada, um caco velho, que se não tenho o juízo e a consciência de que, nesses dias aziagos nunca se deve tomar qualquer decisão, por mais razoável que pareça — exatamente por isto mesmo — jogava na lata de lixo. Seria um desastre!
Porque, quando viesse a lua cheia, e o dia calhasse confortável, lá fosse eu a procura de um deles, e não encontrasse, ah!, ficaria tão acabrunhado, tão solitário, pois o futuro de um homem que envelhece é parco, o seu passado é tudo que lhe resta, mesmo que nas frágeis linhas de um poema — imagine! — que me poria a uivar para a lua, como um cão danado.
Escrito por Luiz Paulo Santana às 19h14
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