Ouvira três ou quatro frases determinantes em minha vida até então. Uma delas, tinha nove anos — corriam os anos cinqüenta — o sujeito chegou pelas minhas costas e gritou num dos meus ouvidos:
— Papai Noel é o pai da gente!
Lembro-me de que a rua, na verdade um beco, portanto, sem saída, era de terra, algumas casas, árvores espaçadas, lotes vagos, gramados naturais, um sonho para qualquer moleque, e eu estava distraído, a caminhar rumo à casa de um dos amiguinhos. Toda a fruição desaparecera naquele momento.
Aquela verdade se alojou no fundo da minha cabeça como se já houvesse nela o seu exato lugar. Comportei-me dali em diante como alguém que sabe a verdade mas guarda-a para si, secretamente, como se só ele soubesse... o que todos sabem!
Mas ninguém sabia que me desvendaram tão importante segredo, exceto aquele que mo gritara.
E na noite de natal daquele longo ano não consegui conciliar o sono. De posse de meu terrível mas suspeitado segredo, temia dar de cara com o papai Noel ou seja, com o pai da gente, depositando cuidadosamente, sobre os surrados sapatinhos, o que seria o meu presente de natal.
Mas Papai Noel não aparecia e eu podia ouvir os ruídos discretos vindos da sala e adjacências, do que adivinhei ser a preparação dos presentes, o que, malgrado os olhos fechados e uma vontade imensa de estar dormindo profundamente, só confirmava o triste veredicto.
Apesar da tensão, aquela atmosfera familiar trouxe-me tranqüilidade e sem perceber, adormeci. No outro dia, lá estavam os presentes. Na essência, nada mudara. O mundo era cheio de faz-de-conta e um dos primeiros a ruir, no que me diz respeito, foi esse.
A imagem de Papai Noel perdeu a substância, transformou-se num fantasma, esgueirando-se pelos cantos com vergonha de mim, tanto quanto eu dele.
Papai Noel tornou-se um mito desvendado, mas o segredo só o revelei algum tempo depois, quando não senti mais o medo de ser deserdado por saber que Papai Noel não existia, ou em face de sua mesma inexistência.
Percebi com os dias que essa frustração não modificara a minha condição material e dialética com a comunidade familiar. Assim sendo, aposentei Papai Noel que, apesar de inexistente, continua, inevitavelmente, a encher o saco em todos os natais.
jan/97.