 |
|
|
Pronto!
Pronto, estamos de volta. De volta ao ponto de parada. Durante esse intervalo de tempo Os dias passaram. Vários. O saldo líquido é nulo, é nada. Viveu-se. E isso é, ou foi, bom. Fomos à Esmeraldas, desviamo-nos Havia uma manifestação Porque faltou ou tem faltado água Pôs-se fogo em pneus, poluiu-se O ambiente, enfim, passamos Tia Clélia estava bem As mulheres e os homens Trabalhavam, as crianças Os rapazes e as moças lidavam por ali E a rua refletia uma leve camada De poeira. A tarde caiu, a noite Pegou-nos na estrada. Viveu-se outras tantas coisas: Este computador foi ao conserto Eu e Helton fomos à roça e vimos Uma lua muito cheia Filmamos uma sucuri atravessando O asfalto que leva ao Riacho Depois paisagens. Viveu-se mais coisas ainda: Uma noite enuviada na qual havia outra lua igualmente cheia e bela nos altos de Curralinho; Tomou-se muita cachaça Pitou-se com muita calma E saímos em viagem Vargem Grande atravessando dois córregos; Viveu-se então um desconsolo Uma vontade de nada, uma sede de carinho, uma falta de vontade E o Helton voltou pra casa Enquanto eu segui viagem. Foi lindo, foi ótimo. Agora estamos de volta, nós e o tempo passando. O saldo líquido é nulo, pura memória volátil Viveu-se, e é tudo, tudo o que é Necessário, e é nada.
Escrito por Luiz Paulo Santana às 19h00
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
NADA QUER DIZER ALGUMA COISA
Gosto da vida Só acho que a vida não é o que você quer dizer. Acho que a vida é boa mas isso não quer dizer amor. Poxa, tem tanta coisa as cores, são tantas, fantásticas o que não quer dizer felicidade. Antes, quer dizer luz! Que é outro nome — tenha a paciência! Mas não quer dizer futuro. Quer dizer: movimento! Que é apenas um modo de dizer que tudo isso não quer dizer eternidade.
Escrito por Luiz Paulo Santana às 13h42
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Me Entenda
Estou usando palavras, mas, por favor, me entenda.
Esqueça a acepção do termo, é um começo, afaste idéias claras e preconcebidas, passe a borracha toda a vez que a frase se quedar rígida.
Infira, deduza, depreenda, creia, pense, interprete, traduza, adivinhe, profetize, mas jamais conclua, ou pelo menos, jamais conclua
definitivamente,
pois se você me entende sabe que no reino das palavras sou inconcluso por natureza.
Sobretudo me entenda antes da concepção, me entenda com as tripas, com o fígado, com o coração, me entenda com os pés, as mãos, com o corpo todo inventariado de palavras.
Mas me entenda como o rio entende as águas, como as águas entendem a sede, como a voz entende o cio, como o cio entende a madrugada.
Me entenda antes de mais nada, desentendendo-me dessedentando-me desassistindo-me naquilo que naõ posso ter, exceto por um lapso de tempo: a ilusão de que as palavras me trarão a plenitude do ser a solução do mistério o sentimento do todo a paz da eternidade.
Estou usando palavras, palavra. Mas, por favor me entenda.
Escrito por Luiz Paulo Santana às 23h02
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Meu Amigo, o Rio e os Dias

Escrito por Luiz Paulo Santana às 22h13
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Amigos(as)
Amigos(as) Amigos são assim onipresentes mortos ou vivos rasos ou envolvidos leves ou influentes magros ou encarnados rápidos ou entrevistos no sinal fechado ou sós na contra-mão. Amigos há, que são fantasmas permanentes tão infinita em sua desaparição que jamais mudam pois nunca nos dão de novo a velha cara para atualização. Minhas amigas ocultas na sintaxe masculina: amigas de poemas e luares amigas de caminho e criação amigas minhas de perplexidades amigas de suor e de paixão amigas tão distantes e diáfanas amigas que hão de vir e que se vão: hospedem-me humílimo, em vosso generoso coração. E há os amigos que à nossa volta nos circunvagam sem destinação: perenes, como nós nessa constância provisória não são fantasmas nem onipresenças; quiçá, quando morrerem (se antes de nós) assim o serão. Enfim, amigos nossas referências uns mais distantes outros mais antigos são partes vivas de diversas tribos carne do mesmo tempo cerne do mesmo então pontes virtuais que ligam antigos versos concretizados à fronteiriça linha desse poema somado no dia a dia do chão.
Escrito por Luiz Paulo Santana às 16h01
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Poíesis.Poisé.Poesia
Poíesis Poisé Poesia Do outro lado da Bahia tem Tom Zé inquieto & mortal Gilberto Gil meu candidato a presidente do Brasil Caetano e Neto um etano e quato cada qual Caetortano ou tal que Tortanoneto. Poíesis, sim. Agora xinga meu filho (e por falar de baianos)
xinga em três sílabas xinga já, vai, desabafa! Cã nalha!!! Can-alha!!! Can Nalha!!! Cannalha!!! Luiz Paulo Cannalha Não é canalha de vil, reles, velhaco, indecente. É Cannalha! É Cannalha com dois enes, minha gente!!! É sobrenomme viril!!! Poisé. Deixa pra lá, vem, vam'bora Peleja mais que me valha Velhice que me amarfanha Viçosa que me desfolha Folhagem que me reveste Descrença que me empurrasse Mas não vou dar milho a vice. Ora, cada passo e cada hora seria melhor ainda se não fossem os cã-nalhas os can-alhas os can nalhas os cannalhas a canalha azucrinar a gente! Pois ali mesmo na Serra do Cipó o bem e o bom do belo povo do Açude sob as bençãos dos antigos se preparam celebrantes o braseiro da fogueira pra afinação dos tambus a cachacinha no traço caldo e bolo condizentes pra no fim se alimentar canto de fé e de repente na imensa noite dos tempos sob estrelas e luar o candombe tá de pé no pé na mão nos tambus em honra subida e glória da Senhora do Rosário. Poesia. Não fora a vida virada nessa corrida sem tino nesse vasto bestiário sem razão, crença, destino a gente bem que podia cantar nas noites de lua celebrar tardes fluentes orar nas manhãs de frio tamborejar nos encontros festivos à beira-rio sem pressa ou consumição. Podia, não!!! A gente pode, sim! Segura o pé, que eu já vou!
Escrito por Luiz Paulo Santana às 19h12
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Reto e Rude
Agora, sob a forma de um soneto
Em decassílabos arquitetado
Nenhum milagre ou mágica prometo
Apenas a razão e o ar de enfado.
Em todos os Natais, antes, notava
A religiosidade — um arremedo
Daquilo, que em verdade, só tratava
De dar graças aos deuses, sem brinquedo.
O mote, d'antes, era uma atitude
De gratidão pela fartura feita
O coletivo em transe era a virtude.
Hoje o comum é uma visão estreita:
Trabalho igual consumo reto e rude
Enquanto o capital faz a colheita.
Escrito por Luiz Paulo Santana às 14h38
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Conversar é bom
Conversar é bom
Conversar é bom
quando a gente quer
trocar as palavras:
homem ou mulher
Conversar faz bem
quando a gente tem
coisas a dizer
e a escutar também
Conversar, além
de tudo é melhor
quando o amor é mor
e o carinho zen
Conversar é atroz
se ninguém dá o tom
sendo muito o som
não se escuta a voz
Conversar é pôr
as cartas na mesa
cura língua solta
solta língua presa
Conversar, enfim
coisa de amador
melhor seja assim
maior seja o amor.
Escrito por Luiz Paulo Santana às 23h00
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
De filha para mãe
De filha para mãe
Mãe,
Você sabe da minha capa de chuva? Preciso levá-la. Preciso também das chaves das malas do Rafa. Diga pra ele que é para pôr na conta o empréstimo das malas e para ele não esquecer que irmão é pra essas coisas, hehehehe...
Tive que deixar muitas blusas para trás (como você pôde perceber pela pilha delas sobre a mesa), pois não estava cabendo!
Por favor, entregue o casaco da Lú, se puder, e agradeça muito por mim. Diga que além de ter ficado um pouco grande, não coube nas malas. Entregue as blusas da tia Vilma também e agradeça por mim, mais uma vez.
Bom, acho que isso é tudo.
No mais, até amanhã e obrigada por tudo.
Um beijo e boa noite!
Rânia
24:10 h
Obs.: Já achei a capa de chuva, tá?
Escrito por Luiz Paulo Santana às 13h32
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
E o planeta...
E o planeta... A cada um e a cada uma o seu nome e o seu sobrenome sua carteira de identidade seu cartão de crédito sua conta bancária seu crédito facilitado A cada um e a cada uma seu telefone celular sua TV, seu DVD, seu karaokê seu pen-drive seu cd-room A cada um e a cada uma seu computador sua webcam sua impressora a jato de tinta seus mais softwares A cada um e a cada uma seu microondas sua lavadora sua secadora seu telefone sem fio sua esteira rolante sua banheira com hidromassagem sua piscina sua casa & jardim A cada um e a cada uma seu AP com elevador seu carro e seu outro carro seus ares condicionados suas vagas na garagem A cada um e a cada uma seu lugar no trânsito seu presente de aniversário sua inveja sua humilhação sua frustração e seu ódio A cada um e a cada uma indispensável o seu plano de saúde seu médico seu nutricionista seu personal training seu analista e seu psiquiatra seu advogado criminalista e, claro, quase me esquecia sua cozinheira e sua empregada que também eles são e são muitos cada um e cada uma A cada um e cada uma sua vida pacata sua beligerância vizinha seus foguetes sua cachacinha sua abobrinha e seu quiabo com angú sua invernada e sua madrugada sua memória esquecida seu forró do pé-de-serra sua casamentada sua canjica seu quentão seu rojão e sua cavalgada A cada um e a cada uma tudo o que todos fazem ou cultivam tudo o que todos dizem e acreditam a cada um e cada uma sua impossibilidade sua quota e seu martírio seu lugar de nascimento sua miséria e sua justificativa seu crime e sua comédia sua consciência ecológica sua escravidão e seu vício sua soberba e suas ilusões A cada um e a cada uma sua autonomia relativa sua vulnerabilidade e sua inércia sua irresponsabilidade coletiva sua omissão e sua derrota seu pessimismo da vontade sua ignorância e sua cultura sua pobreza de espírito Mas, que ninguém, ninguém se engane: é com o que vamos hoje, nessa quadra e o planeta que se dane!
Escrito por Luiz Paulo Santana às 14h25
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Conselhos Poéticos
Conselhos Poéticos
Não jogue pontas de cigarro
nas margens das estradas
(nem faça estradas no meu peito
com cigarro aceso:
vai que me caia a brasa
e eu perca os freios);
Não acenda fogueiras perto das matas
mas faça amor na orla das fogueiras
(não se distraia — uma fagulha, basta);
Não atravesse as ruas fora da faixa
(nem pise na contramão da vontade quando
nua clareira: eu e você sem pílula,
camisinha ou autorização);
Não jogue lixo na via pública
nem na vala comum ou valo divisório
(mas faça ecologia explícita, meu bem,
mantendo a via de mão dupla nesse vai-e-vem);
Não corte as árvores das nascentes
e margens de lagos, córregos e rios – matas ciliares
(sem omitir, é claro, toda a paixão
que por ventura o/a cega
descer o monte
fazer a corte,
buscar o corte
por entre outras
matas ciliares).
Escrito por Luiz Paulo Santana às 13h37
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Terra
Terra
Donde vem essa carne e
pele e
unhas e ossos e
tecidos musculares e
palpitação e fluxo e
movimento?
do mar disseram
terra à vista
do espaço disseram
azul é a terra
no passado afirmaram
“Eppur si muove”
e tudo se move
gira regira
em torno de um eixo
e de outros eixos
em torno dos quais
giram regiram
rumo ao depois
antes éramos crentes
e era tudo pelo
amor de Deus e agora
é só o espaço e nós
em cima dessa
Terra quente.
Escrito por Luiz Paulo Santana às 13h16
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Prazer e Sono
Prazer & Sono
Chuvas torrenciais à meia noite
Do dia vinte e cinco de dezembro.
Vertia o ano de noventa.
Meus olhos sonolentos despediam
A noite barulhenta.
Telinha silenciada — o som da chuva
E todas as mulheres amparadas.
Não há paixão, nem há tesão, nem nada
Nas imagens cuja mímica adivinho.
Não estou sentimental, nem há carinho
No ato de pensar este poema.
Apenas uma coisa me condena:
Vontade de dormir, que ainda adio.
Queria prolongar essa novena
Cujo prazer difuso me divide.
Quero gozar os versos do poema
E o acalanto dessa chuva mansa.
Vivem-me os sentidos percorrendo o tema
Morrem-me os olhares e os meus movimentos.
Ainda dividido no dilema
De pensar o verso, ou de dormir com o tempo.
25/dez/90
Escrito por Luiz Paulo Santana às 15h29
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Eu não fiz um poema
Eu não fiz um poema no dia de hoje
no cruzar este sol o céu em fora
veio a tarde encharcada de vermelho
fez-se a noite e ventou e já é hora
eis que faço o poema nesse espelho
nesse justo momento aqui e agora.
Eu não fiz um poema
porque não me coube
fazer um poema
no dia de hoje.
Faço agora o que chamo de Poema
por elipses e eclipses insondáveis
organizo em princípio véus e linhas
quando a lua lá fora já sobeja
e a janela fechada se ilumina:
destas luzes não sei qual mais acesa.
Mês inteiro de agosto já termina
na folhinha parada à minha frente
gozarei em setembro se puder
se encontrar no caminho uma mulher
que queira desfazer-se de contente
desfazer-se de amor e arrebatar-se
ao solar das manhãs e impunemente.
No poema desliza o meu desejo
desafio veloz e imponderável
a romper as fronteiras do presente
do amanhã inexistente, mas provável
uma noite a mais e já o veremos
e com que palavras, frases e textos
e com que (in)versos nos repetiremos.
Se e enquanto navego neste agora
me preparo — escrevendo — pra dançar
para além desde a sala de jantar
ela quer mil quereres, também quero
as palavras dançantes — meus sapatos
na rima dos passos ao som de um bolero.
Escrito por Luiz Paulo Santana às 14h50
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Milho Verde
Montanhas encadeadas
morro pico serra escarpa
abismos vasos e altares
esculturas antiqüíssimas
cursos d’água como cobras
correndo pelas campinas
líquido plano e vermelho
espelho é ouro e resina
Flores mínimas miríades
amarelas azuizinhas
ocres alvas em buquê
de espetos verde-capim
rosadas em balcões-moita
coroadas cá e lá
como lustres invertidos
ou satélites alviverdes
milhares delas faiscando
na aurífera luz da tarde
Um chapadão de promessas
onde um burgo se aviou
num descaminho da história
dos garimpeiros de el-Rei:
passaram-se os coadjuvantes
o burgo ficou de pé
com seu povo de raiz
plantado nessa travessa
de pedras alturas planos
frágeis flores faiscantes
Viajando sob o sol
no extremo da Via Láctea
morada final e eterna
dos diamantes.
Escrito por Luiz Paulo Santana às 11h53
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
 |
| [ página principal ] [ ver mensagens anteriores ] |
|
 |


|
 |