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Reto e Rude
Agora, sob a forma de um soneto
Em decassílabos arquitetado
Nenhum milagre ou mágica prometo
Apenas a razão e o ar de enfado.
Em todos os Natais, antes, notava
A religiosidade — um arremedo
Daquilo, que em verdade, só tratava
De dar graças aos deuses, sem brinquedo.
O mote, d'antes, era uma atitude
De gratidão pela fartura feita
O coletivo em transe era a virtude.
Hoje o comum é uma visão estreita:
Trabalho igual consumo reto e rude
Enquanto o capital faz a colheita.
Escrito por Luiz Paulo Santana às 14h38
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Conversar é bom
Conversar é bom
Conversar é bom
quando a gente quer
trocar as palavras:
homem ou mulher
Conversar faz bem
quando a gente tem
coisas a dizer
e a escutar também
Conversar, além
de tudo é melhor
quando o amor é mor
e o carinho zen
Conversar é atroz
se ninguém dá o tom
sendo muito o som
não se escuta a voz
Conversar é pôr
as cartas na mesa
cura língua solta
solta língua presa
Conversar, enfim
coisa de amador
melhor seja assim
maior seja o amor.
Escrito por Luiz Paulo Santana às 23h00
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De filha para mãe
De filha para mãe
Mãe,
Você sabe da minha capa de chuva? Preciso levá-la. Preciso também das chaves das malas do Rafa. Diga pra ele que é para pôr na conta o empréstimo das malas e para ele não esquecer que irmão é pra essas coisas, hehehehe...
Tive que deixar muitas blusas para trás (como você pôde perceber pela pilha delas sobre a mesa), pois não estava cabendo!
Por favor, entregue o casaco da Lú, se puder, e agradeça muito por mim. Diga que além de ter ficado um pouco grande, não coube nas malas. Entregue as blusas da tia Vilma também e agradeça por mim, mais uma vez.
Bom, acho que isso é tudo.
No mais, até amanhã e obrigada por tudo.
Um beijo e boa noite!
Rânia
24:10 h
Obs.: Já achei a capa de chuva, tá?
Escrito por Luiz Paulo Santana às 13h32
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E o planeta...
E o planeta...
A cada um e a cada uma o seu nome e o seu sobrenome
sua carteira de identidade
seu cartão de crédito
sua conta bancária
seu crédito facilitado
A cada um e a cada uma seu telefone celular
sua TV, seu DVD, seu karaokê
seu pen-drive
seu cd-room
A cada um e a cada uma seu computador
sua webcam
sua impressora a jato de tinta
seus mais softwares
A cada um e a cada uma seu microondas
sua lavadora sua secadora
seu telefone sem fio
sua esteira rolante
sua banheira com hidromassagem
sua piscina
sua casa & jardim
A cada um e a cada uma seu AP com elevador
seu carro e seu outro carro
seus ares condicionados
suas vagas na garagem
A cada um e a cada uma seu lugar no trânsito
seu presente de aniversário
sua inveja sua humilhação
sua frustração e seu ódio
A cada um e a cada uma
indispensável o seu plano de saúde
seu médico seu nutricionista
seu personal training
seu analista e seu psiquiatra
seu advogado criminalista
e, claro, quase me esquecia
sua cozinheira e sua empregada
que também eles são e são muitos
cada um e cada uma
A cada um e cada uma sua vida pacata
sua beligerância vizinha
seus foguetes sua cachacinha
sua abobrinha e seu quiabo com angú
sua invernada e sua madrugada
sua memória esquecida
seu forró do pé-de-serra
sua casamentada
sua canjica seu quentão
seu rojão e sua cavalgada
A cada um e a cada uma
tudo o que todos fazem ou cultivam
tudo o que todos dizem e acreditam
a cada um e cada uma sua impossibilidade
sua quota e seu martírio
seu lugar de seu nascimento
sua miséria e sua justificativa
seu crime e sua comédia
sua consciência ecológica
sua escravidão e seu vício
sua soberba e suas ilusões
A cada um e a cada uma sua autonomia relativa
sua vulnerabilidade e sua inércia
sua irresponsabilidade coletiva
sua omissão e sua derrota
seu pessimismo da vontade
sua ignorância e sua cultura
sua pobreza de espírito
Mas, que ninguém, ninguém se engane:
é com o que vamos hoje, nessa quadra
e o planeta que se dane!
Escrito por Luiz Paulo Santana às 14h25
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Conselhos Poéticos
Conselhos Poéticos
Não jogue pontas de cigarro
nas margens das estradas
(nem faça estradas no meu peito
com cigarro aceso:
vai que me caia a brasa
e eu perca os freios);
Não acenda fogueiras perto das matas
mas faça amor na orla das fogueiras
(não se distraia — uma fagulha, basta);
Não atravesse as ruas fora da faixa
(nem pise na contramão da vontade quando
nua clareira: eu e você sem pílula,
camisinha ou autorização);
Não jogue lixo na via pública
nem na vala comum ou valo divisório
(mas faça ecologia explícita, meu bem,
mantendo a via de mão dupla nesse vai-e-vem);
Não corte as árvores das nascentes
e margens de lagos, córregos e rios – matas ciliares
(sem omitir, é claro, toda a paixão
que por ventura o/a cega
descer o monte
fazer a corte,
buscar o corte
por entre outras
matas ciliares).
Escrito por Luiz Paulo Santana às 13h37
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Terra
Terra
Donde vem essa carne e
pele e
unhas e ossos e
tecidos musculares e
palpitação e fluxo e
movimento?
do mar disseram
terra à vista
do espaço disseram
azul é a terra
no passado afirmaram
“Eppur si muove”
e tudo se move
gira regira
em torno de um eixo
e de outros eixos
em torno dos quais
giram regiram
rumo ao depois
antes éramos crentes
e era tudo pelo
amor de Deus e agora
é só o espaço e nós
em cima dessa
Terra quente.
Escrito por Luiz Paulo Santana às 13h16
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Prazer e Sono
Prazer & Sono
Chuvas torrenciais à meia noite
Do dia vinte e cinco de dezembro.
Vertia o ano de noventa.
Meus olhos sonolentos despediam
A noite barulhenta.
Telinha silenciada — o som da chuva
E todas as mulheres amparadas.
Não há paixão, nem há tesão, nem nada
Nas imagens cuja mímica adivinho.
Não estou sentimental, nem há carinho
No ato de pensar este poema.
Apenas uma coisa me condena:
Vontade de dormir, que ainda adio.
Queria prolongar essa novena
Cujo prazer difuso me divide.
Quero gozar os versos do poema
E o acalanto dessa chuva mansa.
Vivem-me os sentidos percorrendo o tema
Morrem-me os olhares e os meus movimentos.
Ainda dividido no dilema
De pensar o verso, ou de dormir com o tempo.
25/dez/90
Escrito por Luiz Paulo Santana às 15h29
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Eu não fiz um poema
Eu não fiz um poema no dia de hoje
no cruzar este sol o céu em fora
veio a tarde encharcada de vermelho
fez-se a noite e ventou e já é hora
eis que faço o poema nesse espelho
nesse justo momento aqui e agora.
Eu não fiz um poema
porque não me coube
fazer um poema
no dia de hoje.
Faço agora o que chamo de Poema
por elipses e eclipses insondáveis
organizo em princípio véus e linhas
quando a lua lá fora já sobeja
e a janela fechada se ilumina:
destas luzes não sei qual mais acesa.
Mês inteiro de agosto já termina
na folhinha parada à minha frente
gozarei em setembro se puder
se encontrar no caminho uma mulher
que queira desfazer-se de contente
desfazer-se de amor e arrebatar-se
ao solar das manhãs e impunemente.
No poema desliza o meu desejo
desafio veloz e imponderável
a romper as fronteiras do presente
do amanhã inexistente, mas provável
uma noite a mais e já o veremos
e com que palavras, frases e textos
e com que (in)versos nos repetiremos.
Se e enquanto navego neste agora
me preparo — escrevendo — pra dançar
para além desde a sala de jantar
ela quer mil quereres, também quero
as palavras dançantes — meus sapatos
na rima dos passos ao som de um bolero.
Escrito por Luiz Paulo Santana às 14h50
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Milho Verde
Montanhas encadeadas
morro pico serra escarpa
abismos vasos e altares
esculturas antiqüíssimas
cursos d’água como cobras
correndo pelas campinas
líquido plano e vermelho
espelho é ouro e resina
Flores mínimas miríades
amarelas azuizinhas
ocres alvas em buquê
de espetos verde-capim
rosadas em balcões-moita
coroadas cá e lá
como lustres invertidos
ou satélites alviverdes
milhares delas faiscando
na aurífera luz da tarde
Um chapadão de promessas
onde um burgo se aviou
num descaminho da história
dos garimpeiros de el-Rei:
passaram-se os coadjuvantes
o burgo ficou de pé
com seu povo de raiz
plantado nessa travessa
de pedras alturas planos
frágeis flores faiscantes
Viajando sob o sol
no extremo da Via Láctea
morada final e eterna
dos diamantes.
Escrito por Luiz Paulo Santana às 11h53
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Perguntas
Perguntas
Será o alinhamento dos planetas?
Fui ao quintal, e as estrelas piscavam.
Nelas procurei respostas.
E piscavam.
Havia uma nebulosa, pequenina
que me instava
a procurar dentro da noite
tantas respostas.
Ao rés do chão vi gente humilde
clamando por liberdade
para um outro, como eles, que era preso.
Dona Matilde, sô Germano, sá Maria
a professora Sônia, o engraxate, o flautista
todos de fala mansa em suas casas
no calor de suas bem-aventuranças.
Como são bravos os heróis das minhas tardes.
Anjos que dormem no aconchego desta noite
enquanto me pergunto, e os olhos ardem
de sêcos, noctâmbulos sem arte
a procurar nas estrelas as respostas
para perguntas que ecoam em toda a parte.
Escrito por Luiz Paulo Santana às 14h25
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De novo sou planeta, meu amor
De novo sou planeta, meu amor
Para Wilson
Agora volto a ser terreno
terráqueo térreo
subterrâneo
íntimo da terra
terreal
mais terra do que pó
e finalmente terra tão só
somente terra
não pó
mas outra carne
outro cerne
vital
pois
séculos e séculos
viajava nas entranhas
de homens e mulheres
genearcas de antanho
nosso código genético passando
até que me encarnaram
indivíduo
sete vezes já transposto
por encanto sete filhos
indivíduo agora acabo
enquanto cerro
os olhos
ao berço primitivo
retornando
sob o sol e o calor
que nos gerou:
de novo sou planeta
meu amor.
Escrito por Luiz Paulo Santana às 14h30
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Lendas
Lendas
Chico Buarque, em conversa com Tom, exprimiu bem a minha insaciável vontade de, vez por outra, reencontrar os amigos diletos. Disse o Chico que gostava de conversar com o Tom, para ouvir dele, no seu modo especialíssimo de narrar, “novas versões de velhos acontecimentos”.
Eis aí o motivo pelo qual delicio-me com os reencontros. De fato, surgem sempre novas versões dos melhores acontecimentos vividos ao longo do tempo, principalmente do tempo em que convivíamos estreitamente.
As novas versões não deixam nada a desejar. Costumam vir com outras cores, novos ângulos de visão, e não raro, alguma coisa nova, isto é, velha, porém não relembrada na versão ou versões anteriores. Às vezes vêm mesmo com adendos efetivamente novos, encaminhando ou reforçando a destinação dos fatos no rumo da lenda.
Parece coisa que relembrar os acontecimentos sob uma nova ótica, sob velhas luas cheias, sob antigos lábaros estrelados, mas novos, novos, porque de novo estão acontecendo sobre as nossas cabeças estas luas e estes lábaros estrelados, velhíssimos, parece coisa que estas relembranças acabam por tornar-se algo literárias, históricas, lendárias, que mais vivamente tocam as nossas almas que a realidade do tempo em que foram vividas.
Até porque, a mim me parece, não se tem plena consciência da beleza e da significação da vivência no momento em que se desfruta. Vive-se o momento com a naturalidade paquidérmica do boi no pasto. Acho que exagerei. Saboreia-se, sim, o momento vivido. Mas com outras cores.
Acontece que ao recontar histórias costuma-se juntar outros ingredientes, como o constatar-se que o nosso filho experienciou algo que nós também, naquela idade, experimentamos, e é aí que a lenda vem enriquecer o encontro.
É como um lance paleontológico. Achar um pedaço de osso da perna de algum animal extinto leva o descobridor a imaginar mil e uma situações. Daqui a milhares de anos, um pé de galinha poderá levar alguns fanáticos destas escavações ao delírio. Para nós, quá, a galinha inteira pouco representa em termos de imaginação. Ela está ali, diante de nossos olhos, em carne, ossos e penas.
Mas, nós, que temos mais que um mero esqueleto, que temos a imagem inteira de nossos melhores momentos, poderemos criar quantas versões quisermos, infinitas versões sempre mais e mais coloridas e carregadas de novas nuanças, até que sejamos nós próprios não mais que a própria lenda, sim, até que sejamos nós não mais que uma bela e distante história na sua última, intangível, definitiva versão.
Escrito por Luiz Paulo Santana às 22h14
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Adoro reler velhas poesias
Adoro reler velhas poesias no recesso de minha quase silenciosa biblioteca, apenas o inevitável zumbido do computador. Minha reação ao lê-las varia conforme o meu estado de espírito, e este, com os dias da semana. Assim, se me exulto ao ler determinado poema, calha ser uma quinta-feira, quando muito, uma quarta. Segunda-feira tudo me parece uma merda. A sexta-feira é confusa, dispersiva, excessivamente hílare. Terça-feira encontro-me muito ocupado.
Segunda-feira a gente se levanta e pensa: “Que vida besta!” Acorda quando não devia acordar, poderia continuar dormindo até terça, mas acorda, porque a cama já não é a mesma. Senta na cama, olha em torno e constata, aparvalhadamente, que tudo está amarrotado: desde os lençóis até a alma. A cara, nem se fale. A cara só deveria ser vista a partir das 17:00 horas. Tremenda ressaca de um domingo que nem sempre vinga.
Mas os poemas, ah!, relê-los em certas circunstâncias, noite alta, estrelas no pedaço de céu do quintal que atravesso vez por outra, vale a pena. Não pelo valor poético, que há algum neles, sem dúvida, falam com a minha própria alma, mas sobretudo porque me recordam épocas, situações, emoções e lugares que, se já não existem mais, existem em mim, como impressão digital indelével.
Poemas que são o meu próprio cerne, a minha pegada invisível, o cheiro, o aroma que só eu posso perceber. Mas quando estou nos dias errados, naqueles dias de corpo fechado, ficam como esqueletos no armário, esqueletos de letras e palavras estruturadas que não assustam, não comovem, tão inúteis quanto uma vassoura quebrada, um caco velho, que se não tenho o juízo e a consciência de que, nesses dias aziagos nunca se deve tomar qualquer decisão, por mais razoável que pareça — exatamente por isto mesmo — jogava na lata de lixo. Seria um desastre!
Porque, quando viesse a lua cheia, e o dia calhasse confortável, lá fosse eu a procura de um deles, e não encontrasse, ah!, ficaria tão acabrunhado, tão solitário, pois o futuro de um homem que envelhece é parco, o seu passado é tudo que lhe resta, mesmo que nas frágeis linhas de um poema — imagine! — que me poria a uivar para a lua, como um cão danado.
Escrito por Luiz Paulo Santana às 19h14
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Fragmentário
Ao acordar
fez-se pra mim
a luz do sol
eu me lembrei de Rosely
que tem rosa lá
no nome além de ly
no fim
plantei uma árvorezinha
no passeio
ao lado do porta-lixo
o pôr-do-sol na roça
esteve lindo
a lua cresce hoje
sobre mim
Alphonsus: “Luares, pores-de-sol,
cousas que morrem breve”
Não, não morrem: adormecem.
O Brasil não vai
a lugar algum:
ele nem sabe de si
do Oiapoque ao Chuí.
Escrito por Luiz Paulo Santana às 15h21
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Papai Noel
Ouvira três ou quatro frases determinantes em minha vida até então. Uma delas, tinha nove anos — corriam os anos cinqüenta — o sujeito chegou pelas minhas costas e gritou num dos meus ouvidos:
— Papai Noel é o pai da gente!
Lembro-me de que a rua, na verdade um beco, portanto, sem saída, era de terra, algumas casas, árvores espaçadas, lotes vagos, gramados naturais, um sonho para qualquer moleque, e eu estava distraído, a caminhar rumo à casa de um dos amiguinhos. Toda a fruição desaparecera naquele momento.
Aquela verdade se alojou no fundo da minha cabeça como se já houvesse nela o seu exato lugar. Comportei-me dali em diante como alguém que sabe a verdade mas guarda-a para si, secretamente, como se só ele soubesse... o que todos sabem!
Mas ninguém sabia que me desvendaram tão importante segredo, exceto aquele que mo gritara.
E na noite de natal daquele longo ano não consegui conciliar o sono. De posse de meu terrível mas suspeitado segredo, temia dar de cara com o papai Noel ou seja, com o pai da gente, depositando cuidadosamente, sobre os surrados sapatinhos, o que seria o meu presente de natal.
Mas Papai Noel não aparecia e eu podia ouvir os ruídos discretos vindos da sala e adjacências, do que adivinhei ser a preparação dos presentes, o que, malgrado os olhos fechados e uma vontade imensa de estar dormindo profundamente, só confirmava o triste veredicto.
Apesar da tensão, aquela atmosfera familiar trouxe-me tranqüilidade e sem perceber, adormeci. No outro dia, lá estavam os presentes. Na essência, nada mudara. O mundo era cheio de faz-de-conta e um dos primeiros a ruir, no que me diz respeito, foi esse.
A imagem de Papai Noel perdeu a substância, transformou-se num fantasma, esgueirando-se pelos cantos com vergonha de mim, tanto quanto eu dele.
Papai Noel tornou-se um mito desvendado, mas o segredo só o revelei algum tempo depois, quando não senti mais o medo de ser deserdado por saber que Papai Noel não existia, ou em face de sua mesma inexistência.
Percebi com os dias que essa frustração não modificara a minha condição material e dialética com a comunidade familiar. Assim sendo, aposentei Papai Noel que, apesar de inexistente, continua, inevitavelmente, a encher o saco em todos os natais.
jan/97.
Escrito por Luiz Paulo Santana às 13h44
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